Doem-me os lábios, e não sei se é do frio, se é do silêncio. Odeio fazer o caminho de casa. Ter de descer a calçada do Carmo, passar pelo Celeiro para comprar o jantar, entrar no Metro dos Restauradores e enfrentar a turba, sair em Sete Rios e apanhar o comboio que finalmente me vai levar a casa. Saio na estação suja e os saltos enfiam-se pelos quadrados da calçada, detesto que o vento me bata na cara, aconchego o casaco maldizendo o Inverno e abano o discman que volta e meia pára de tocar.
Chego a casa para os meus pais e irmãos, apenas. Janto, danço algumas coreografias, tomo banho e vou-me deitar. Talvez aproveite para trabalhar um pouco, adiantar um artigo, actualizar a agenda, desgravar uma entrevista. E é isto, porque na manhã seguinte quero levantar-me cedo e ser mais produtiva. Estou bêbeda com o trabalho porque o resto me parece longínquo.
Hoje penso na viagem a São Francisco, na roupa que temos de preparar para o show do fim-de-ano e nas paredes da minha casa, que tenho de pintar antes de levar as mobílias. Sair de casa, mudar de casa, sair de casa, mudar de casa. Repetir várias vezes até parecer real.
Penso por momentos que uma maior solidão me vai trazer maior conforto.
E depois, aterrorizada, penso que a solidão não é uma escolha minha. É uma fatalidade da minha índole.
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