10.29.2004

Nudez

O exílio a que fui obrigada neste mês de Outubro deu cabo de mim. Bem sei que a culpa foi minha; eu é que paguei 6.200 euros para que um médico trocista me esculpisse. Mas a consequente tortura da dor, o isolamento do mundo exterior, a interrupção abrupta de tudo o que eu mais gostava de fazer, a impossibilidade de dançar, tornaram-me pequenina. Apercebo-me que sou o que faço e não aquilo que idealizo.

Ainda e sempre este amor que me sufoca: a ausência deixou-me desvairada. Nas longas horas que passei imobilizada na cama, meia inconsciente pela quantidade de drogas que a dor me fez tomar, delirei várias vezes... Não vivi para mais nada, nesses dias longos e tormentosos: queria ultrapassá-los apenas para poder estar ali outra vez, sentir o peso do seu corpo, deixar os cabelos cair-lhe sobre o peito a cada beijo de sofreguidão.
Mas passei a última semana a lutar contra ele, a tentar libertar-me desse jugo. E hoje aceito finalmente que não consigo, e então estou-lhe entregue. Esta é uma certeza que só se tem uma vez na vida: vou acreditar até ao fim.

E o que mais desejo é despir-me, a nudez exalta o amor que sinto.

10.27.2004

Vermelho-sangue

Levei a mão à boca, e nada me surpreendeu nos meus dentes. Gostaria de estar do outro lado, e como eu seria uma vampira interessante… Por breves instantes mergulhada num universo a preto e vermelho, atrofiante para os olhos, perguntei-me se não poderia haver em mim um pouco dessa distorção. Não tentei eu sempre dominar a vontade dos outros? Não procuro eu desesperadamente sugar-lhes amor? Talvez eu pudesse ser uma vampira e retirar de fora a energia que me falta e me torna obcecada pela aceitação do mundo. Se ao menos conseguisse arrancar do meu pescoço os dentes que cá trago cravados! Se ao menos eu conseguisse estancar o sangue que não paro de perder em nome de algo que eu não vejo como mais que absurdo…
Vampirizar. Voltar ao orgulho do preto. Deixar de ser metade. Recuperar a sanidade.

(Mental Note: evitar o Vampire Realm Of Darkness sempre que viajar pelo mundo virtual).

10.26.2004

Vento nos pés

A minha fuga para a frente tem um sentido óbvio de denial. Vou a caminho do precipício de onde já caí, como uma gata que esqueceu onde se escaldou. Pestanejo confusamente ao assomar-se a sua presença, busco-o sem saber por que razão não desisto de procurar maçãs em árvores mortas. Odeio-o variadíssimas vezes durante o dia; quase não suporto a vontade de o esmagar dentro da minha cabeça. E depois amacio, tal criança chorosa a quem dão gomas às cores. Entretenho-me, portanto, a imaginar que tudo seria perfeito entre nós, como era no início, quando não existia mais ninguém no nosso mundo. Estendo os cabelos na almofada, cerro os olhos e por instantes que não pertencem à realidade consigo tocar nesse amor profundo que sinto por ele, o amor que nós seríamos se ele me amasse também. Don't tell me because it hurts. Saber que acima de todas conquistas da minha vida, fui incapaz de ser amada pelo único homem com quem queria passar o resto dos dias. Thanks for watching as I fall. E que agora terei de procurar outro nome, outro corpo, outra alma para me entregar. E que enquanto eu viver, esta mágoa não irá desaparecer. I guess I will allways love you.

10.25.2004

STATE OF INDEPENDENCE

Por vezes tudo o que eu preciso é saber que há mulheres com tanta raiva como eu.

ALANIS MORISSETTE You Oughta Know
GARBAGE Vow
ANOUK Nobodie's wife
HOLE Violet
NO DOUBT Sunday Morning
SKUNK ANANSIE Hedonism
AVRIL LAVIGNE My Happy Ending
MADONNA Die Another Day
CHRISTINA AGUILLERA Can't Hold Us Down
FIONA APPLE Get Gone
TORI AMOS Cruel
SOPHIE ELLIS-BEXTOR Get Over You
GALA Let A Boy Cry
BIF NAKED Tango Shoes
K'S CHOICE Believe
KELIS Caught Out There
KELIS I Don't Care Anymore
JENNIFER LOVE HEWITT Can I Go Now?
NANCY SINATRA These Boots Are Made For Walking

10.21.2004

E ainda em silêncio

Este vento indomável que me arrepia os cabelos e me obriga a saber que é fim de tarde reflecte a minha própria impaciência. Voltar a viver, ser Eu outra vez aos olhos do mundo. Duas semanas de ausência e parece que estive sempre longe. Nada muda e só eu insisto em aparecer diferente. Estarei mesmo mais forte? Terá a dor conseguido transformar-me numa mulher? Sei que às vezes esqueço como sou abençoada, e esta é uma dessas alturas. Sinto-me pequena, invisível, retrocendendo, rastejante, mal-amada. (E sou cruél comigo mesma).
Sempre amada pela metade, e quase sempre pelas razões erradas. Estou a sentir-me como um imenso poço de lava efervescente e revoltado, contorcido na escuridão de um vulcão inactivo. I'm an angry white woman.
Sou dura, possessiva, autoritária, orgulhosa, altiva. Sou um lobo disfarçado de cordeiro, e, ironicamente, é essa vassalagem aos entes de quem preciso que me torna vulgar aos seus olhos. Estou à espera do meu momento. Não posso admitir a verdade antes de estar forte o suficiente para aguentar de pé as consequências. Tenho de continuar a fingir que perdooei o passado, quando na verdade ele me consome de raiva e de ressentimento.
Quando chegar o momento, vai tudo ao ar. Ainda que me torne um calhau por dentro, um inútil pedaço de frio, quero despedir-me dessa fragilidade que é a dependência emocional. Porque não sou amada de volta, porque não recebo nada daquilo que quero. Porque não passa um segundo nos meus dias dolorosos em que não me atormentem essas palavras que eu tive de ouvir, essa visão do que aconteceu, a consciência de que me arrasto por alguém que não me ama. Não passa um segundo sem que a verdade escondida me mortifique, sem que eu me sinta mutilada, desesperada por me ter deixado humilhar.
Sou uma vergonha para mim própria.

10.19.2004

Benfica-Porto só podia dar nisto: palhaçada.

Mesmo para uma pessoa como eu, que não suporta o Benfica há mais de doze anos, esta palhaçada parece demais. Roubados? 3 pontos? FIFA? Mas o que é isto? Alguém já terá dito ao azeiteiro do LFV que a sua equipa foi demasiado incompetente para ganhar o jogo? Que não se admite a um perseguidor do título passar 45 minutos em cima da área do oponente e não conseguir nada mais que um frango mal anulado? Vão mas é treinar remates e deixem o Olegário em paz. Como se realmente acreditassem que ele fez de propósito e vai receber cheques! Please. Get a life. Já todos percebemos que era golo, temos pena, mas erros destes acontecem frequentemente e não vejo ninguém a bradar para a FIFA e a ameaçar o árbitro de morte. Azeiteiros. Benfica, já chega de envergonhar o futebol português. Calem-se e joguem. Só o que nos faltava era um bigode mal aparado a dizer que um campeonato se resolve à sexta jornada! Mas ninguém diz a este senhor que faltam 28 jornadas?
Nesta barafunda toda, ainda vem o PINTAínho falar do Tonecas, todo contente por ter ganho um jogo que não merecia ganhar, simplesmente porque a sua equipa esteve ajoelhada toda a segunda parte. Tenham juízo.

10.14.2004

Demasiado tempo para pensar

A consciência é um veneno, um instrumento de auto-intoxicação, quando aplicada a nós mesmos. A consciência é um foco dirigido para fora; a consciência ilumina o caminho que se estende à nossa frente para nos evitar as quedas. Dirigida para fora, é um farol aceso no topo de uma locomotiva; para dentro, é a catástrofe. (Pasternak)

Estou há demasiado tempo metida comigo mesma. As paredes do meu quarto diminuem de dia para dia, e eu já não posso com o sufoco da minha voz, da minha omnipresença, da ausência do odor e do frio nocturno que eu não posso tocar porque estou presa. Sozinha, comigo.

10.07.2004

Because I can

«Se queres mel, suporta as abelhas», dizia-me Erasmo um dia antes da minha entrada no inferno voluntário. Queria arrancar as minhas costas e pôr gelo nos músculos descarnados.
Alguém me perguntou porque ia fazer o que fiz. E eu respondi, muito secamente, «porque posso».
A dor, essa, aperta-me como um garrote todos os segundos destes dias intermináveis.