A tua figura em sofrimento constante pesa-me na alma como um machado de chumbo que não me deixa voar. Saber que te dói é a maior mágoa da minha vida. Falhou-te a carne, e o teu espírito arrasta-se com ela. Quase não consigo pensar em ti sem me subir de imediato um nó à garganta e as lágrimas aos olhos. Queria poder ver-te na minha cabeça como eras há quinze, vinte anos. Forte, vivo, capaz. Um touro. O melhor pai do mundo, mesmo quando te gritava e fechava a porta na cara. Queria poder agarrar nessas fissuras que tens dentro de ti e curá-las a todas. Imagino como te dói e parte-se-me o coração. O teu sofrimento obrigou-me a mudar a vida. A beber só quando alguém faz anos, a fumar só quando a Madonna vem a Portugal, a rejeitar qualquer carne proveniente de animais com quatro patas, a desintegrar o saleiro lá da cozinha, a cozinhar os vegetais todos a vapor. A ir ao ginásio todos os dias da semana. A dormir oito horas em vez de quatro, a levantar às oito e não às onze. Disciplinei-me. O teu exemplo faz-me querer estrangular alguém se ouço dizer "quando morrer vou deitado" e "isto é para os bichos".
Tu também dizias isso, pai.
Deste cabo de ti. E hoje, o teu sofrimento dá cabo de mim. O amor que te tenho é infinito, e tudo o que sou devo ao amor inimaginável que depositaste sobre mim. A infância imaculada. O apoio eterno e incondicional. Sou feliz para que o sejas, através de mim.
Vou almoçar contigo... só nós os dois, no Dia do Pai.
3.19.2009
3.18.2009
À espera de acontecer
Esta espera consome-me as horas. Continua a confusão, a desorganização, e eu não entendo certas coisas. Quero trabalhar, a sério, mas ando aqui para trás e para a frente sem conseguir por o barco a andar. Eu sei que estamos todos meio à deriva, mas aborreço-me facilmente. Sou demasiado rápida a fazer as coisas, para o bem e para o mal. Navego de site em site, actualizo blogues, redes sociais. Envio e-mails, faço telefonemas, peço antecipações. E vai tudo cair no buraco negro de números zero que por vezes não chegam a acontecer.
3.09.2009
Branco e preto
Mesas brancas, imaculadas, com monitores pretos gigantes a perder de vista. Está um frio de rachar dentro da nova redacção, e eu descubro que os trópicos ficaram para trás. Preciso de ir repescar a roupa de Inverno ao armário do escritório, e considero até a hipótese de vir trabalhar de luvas; os dedos enregelam-se e fazem-me escrever mais devagar.
Não que tenha grandes obras para fazer.
Ideias. Pedem-me ideias. Sobre tudo e sobre nada. O que me vier à cabeça, mas com um ângulo único e peculiar. Começa a tortura da inovação, do olhar diferente sobre as coisas. Tenho de me retreinar. Porque eu gosto mesmo, e a sério, é das hard news. Notícias puras e duras, disparadas em português bem articulado e desempoeirado. Esta exigência constante de ver a notícia por ângulos diferentes cansa-me o cérebro. Nada nunca é bom o suficiente. Quero ver quanto tempo aguentamos em estado de graça. E quanto tempo vai demorar até que eu não consiga adormecer.
Bem-vindos ao resto da minha vida...
Não que tenha grandes obras para fazer.
Ideias. Pedem-me ideias. Sobre tudo e sobre nada. O que me vier à cabeça, mas com um ângulo único e peculiar. Começa a tortura da inovação, do olhar diferente sobre as coisas. Tenho de me retreinar. Porque eu gosto mesmo, e a sério, é das hard news. Notícias puras e duras, disparadas em português bem articulado e desempoeirado. Esta exigência constante de ver a notícia por ângulos diferentes cansa-me o cérebro. Nada nunca é bom o suficiente. Quero ver quanto tempo aguentamos em estado de graça. E quanto tempo vai demorar até que eu não consiga adormecer.
Bem-vindos ao resto da minha vida...
3.02.2009
(Can't) Break the girl
Estou nesse lugar estranho que é a revolução-a-meio-caminho. É como se tivesse já entrado com os canhões pelo largo do carmo adentro, mas estivesse agora a fazer tempo para os estacionar convenientemente. Tenho o horrível defeito de olhar para trás com admiração, de esquecer rapidamente os tédios e as dores e as queixas, pensar que antes-é-que-era. Combato o saudosismo todos os dias, dentro e fora de mim. Passei as últimas três semanas a deitar coisas para o lixo, num assomo de coragem que nunca tinha tido. Preciso de limpar o espaço à minha volta, deixar que a vida nova aconteça. Não posso querer tornar-me uma pessoa diferente, querer realizar a projecção-de-mim, se fizer sempre tudo da mesma maneira.
Estou a experimentar algo diferente. Aceitei o trapézio sem rede. Encho sacos de pequenos ícones do passado e atiro com eles no caixote do lixo. Preciso que o passado me abandone, preciso de meter os dois pés no futuro.
Preciso de sentir que os meus 28 anos são vividos por dentro e por fora. Que os dias passam com o gozo e a excitação do dever cumprido. Que não falto um único dia ao ginásio. Que consigo ir dançar no fim-de-semana. Preciso que tudo isto valha a pena, e a felicidade que já atingi saiba mutar-se continuamente.
Ou melhor, preciso de saber reconhecê-la noutros sítios, com outras caras e outros nomes. Preciso sempre de saber o que me faz feliz.
Estou a experimentar algo diferente. Aceitei o trapézio sem rede. Encho sacos de pequenos ícones do passado e atiro com eles no caixote do lixo. Preciso que o passado me abandone, preciso de meter os dois pés no futuro.
Preciso de sentir que os meus 28 anos são vividos por dentro e por fora. Que os dias passam com o gozo e a excitação do dever cumprido. Que não falto um único dia ao ginásio. Que consigo ir dançar no fim-de-semana. Preciso que tudo isto valha a pena, e a felicidade que já atingi saiba mutar-se continuamente.
Ou melhor, preciso de saber reconhecê-la noutros sítios, com outras caras e outros nomes. Preciso sempre de saber o que me faz feliz.
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