12.14.2013
Northern Lights
Não vi a aurora boreal enquanto mergulhava os meus segredos na água quente e olhava para a neve em volta. A contradição. O calor imenso no meio do frio mais gélido e insuportável. Pensava em ti e não conseguia arrancar de mim este frio cortante, este desconforto, ao mesmo tempo tão belo e apelativo. Quando o corpo sofre, a mente acalma. Regressei para dar mais uns passos em direcção ao abismo, e estou quase lá. Como é que faço para parar? Como é que volto para trás? Como é que evito aquilo que é tão provável – vais dar um passo atrás, não saltarás comigo, não tens coragem. Falta-te o apetite pelo desconhecido. Better the devil you know. Depois disso, eu vou deixar de ter fome, vou ter um nó constante na garganta. Vou arrepender-me, vou vaguear sozinha pelos cafés desta cidade, em busca de um café tão forte que me console todas as mágoas. Mas não vou chorar. Estou a antecipar o salto, a queda, a dor e os ossos – porque esta é a minha natureza trágica, a de esmagar flores com os pés quando as tento regar. Porque deixei de acreditar que mereço as flores, e as que tenho na jarra da entrada de minha casa não mas deram, comprei-as. Nada nunca me é dado. Tenho de forçar. E desta vez, não sei se aguentas o pé na porta.
7.03.2013
Urgência
Perguntam-me: "O que se passa contigo?". Dizem que perdi o brilho. Perdi o sol. Calei-me. Eu respondo com coisas factuais, coisas negativas que me foram acontecendo e que, à superfície, justificam um certo comportamento taciturno.
Mas na verdade, os ataques constantes tiveram finalmente resultado. Juro que não sei como fazem as pessoas que estão expostas a isto todos os dias. Celebridades, políticos, artistas. Todos os dias a levarem paulada, a serem insultados, gozados, culpados. Não é que eu tenha dito a alguém: "muito bem, tem razão, sou uma idiota, não valho nada, o melhor é desaparecer." Não o disse. Mas sinto-o, mesmo que tente calar esse sentimento. Não respondi aos emails cheios de ódio, que me informaram da minha total inutilidade no mundo e do quão palerma sou. Não respondi, porque não sei o que responder. O que se responde às pessoas quando nos tentam destruir? Como se argumenta com alguém que nos chama idiota, burra, palhaça, inútil, infantil, e daí para baixo?
Não há resposta possível para isto. Eu finjo que não me atinge, finjo para mim própria, sublinho que há problemas mais importantes a resolver, contrario-me mentalmente, tento focar-me no que é realmente grave. Mas estas vozes que me sopram insultos ressoam num recanto da minha alma. Gostava de ser insensível, e forte o suficiente para não ligar.
O meu problema é que não consigo ser má para as pessoas que são más para mim. Não consigo ir a redes sociais retribuir insultos. Não consigo passar horas a tentar deitar alguém abaixo. Não consigo ter essa frieza em mim. Por isso, calo-me. E esmoreço.
Diz uma amiga minha que não é saudável guardar isto, não é saudável aguentar isto, não é saudável remoer nisto. Pois não. Por isso é que perdi o brilho.
5.15.2013
Acordar
Sinto-me a despertar de meses se marasmo, de descrença, como se tivesse tido uma crise de sonambulismo. Alguma coisa mudou em mim nos últimos dias, e não sei apontar o dedo a quê. O interruptor ligou de novo. Esse nome que às vezes me atormenta e outras vezes me inspira regressou, noutro corpo é certo. Take your chance, we all have to dance with danger. O som, surdo ainda, da promessa desse nome, faz-me respirar mais fundo. É só uma promessa. Para mim, hoje, isso é tudo o que importa.
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2.07.2013
Anyone's ghost
Barulhos, parece-me às vezes que tenho todo o barulho do mundo à minha volta. Incluindo os dos fantasmas dos sonhos que matei.
E eu sei que está na hora de os levar para a luz e dizer adeus. Está na hora de sonhar outras coisas, e não lamentar o que passou.
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E eu sei que está na hora de os levar para a luz e dizer adeus. Está na hora de sonhar outras coisas, e não lamentar o que passou.
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2.06.2013
9 million miles
Há quase um ano que não escrevo aqui. Disperso-me aos bocados pelas várias iterações que fui criando por essa blogosfera fora, nada com sentido, tudo adulterado. Não sou eu quem está no meu lugar. Suspendi-me não sei dizer quando, e é como se tivesse um heterónimo a ocupar a minha vida enquanto não me decido a regressar.
Sinto, vezes demais, que segui o caminho errado. O que é que acontece aos caminhos certos quando ficam vazios? Quem é que seguiu por onde devia ter pisado eu? Existirei – tenho a certeza – noutra realidade, nesse caminho, com outra cor de cabelo, com os dedos cheios das coisas que me faltam agora.
Recuso-me a confrontar a parte de mim que sobrevive do antes e me grita "j'accuse!" Se o fizesse, teria de admitir que não estou no sítio onde queria. Não fiz o que devia. A perspectiva é enviesada. Tudo o que era colorido e me fazia feliz desapareceu, mesmo ainda existindo agora. Falo sobre isto e sinto aquela recriminação camuflada, de quem vê de fora e não compreende o que está errado.
Ora.
Eu também não sei.
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