9.28.2004
Suavemente no chão
Só peço que não me pises os cabelos e não esmagues as minhas unhas pintadas de amarelo. É frio até onde eu sinto, e no entanto não movo um músculo para me levantar. A confiança na ausência de vontade. A paz quando o silêncio substitui todos os desejos de amor. E no entanto esse nome sopra-se para dentro dos lábios como se nunca tivesse saído deles.
9.27.2004
Better the devil you know
Sinto-me sozinha. As vozes que tenho em meu redor não bastam, não as quero, não as ouço bem. Troco as gargalhadas dos amigos pela voz maviosa da solidão. Tudo em mim se atrasa, a minha vida ficou para trás e eu olho para as luzes em câmara lenta, eu sou uma novela de mau gosto. Não consigo sequer provar as borras da infelicidade. Não estou em lado nenhum, neste momento. É como se caminhasse um deserto, e no deserto tudo é calmo, tudo é igual, tudo é perigoso e ao mesmo tempo ridículo, inútil perante a imensidão igual a si própria. A minha vontade é um marasmo embaraçoso: baixei os braços e não me importo. Pus de lado os veludos, as sombras, os cheiros a rosa queimada, as fotos a preto e branco, as divas que me habitaram a pele desde que me lembro de ser mulher.
Apetece-me desistir. A raiva esvaiu-se, o amor desvaneceu-se, ficou muito pouco daquilo que eu sonhava. Peço desculpa a mim própria. Não sei onde fui parar.
Apetece-me desistir. A raiva esvaiu-se, o amor desvaneceu-se, ficou muito pouco daquilo que eu sonhava. Peço desculpa a mim própria. Não sei onde fui parar.
9.24.2004
Não é para quem quer
Nos últimos jogos pareceu-me que o Rui Jorge estava morto e ninguém o avisou. Mas hoje tive que fazer 'clap clap' por algo que ele disse a um diário desportivo. «Seis pontos já não são o que eram». DUH!!!!!!! Alguém avise por favor essa camada de benfiquistas frustrados que a procissão ainda nem saiu da Igreja, quanto mais chegar ao adro!
Mas a culpa também é dos meus colegas. A imprensa está a fazer um carnaval com os tais seis pontos porque não tem mais nada para escrever. E o pacóvio do benfiquista, com as botas bem engraxadinhas e o rabiosque inchado, grita alto e bom som «Este ano é que é». Onde é que eu já ouvi isto? Memory anyone???
Mas a culpa também é dos meus colegas. A imprensa está a fazer um carnaval com os tais seis pontos porque não tem mais nada para escrever. E o pacóvio do benfiquista, com as botas bem engraxadinhas e o rabiosque inchado, grita alto e bom som «Este ano é que é». Onde é que eu já ouvi isto? Memory anyone???
9.23.2004
A espada, a parede e tudo o resto...
Entre a visão dilacerante da perda e recuperação de um sentimento muito intenso de amor, as minhas madrugadas não me deixam dormir.
Não consigo explicar o que senti quando vi o meu pai, o MEU pai, caído no chão do quarto, em convulsões, depois de ter desmaiado as quatro da manhã. Nem recordo bem o que se passou, entre os gritos, o choro convulsivo e o gaguejar ao telefone para o 112. As luzes da ambulância, a maca, tudo confuso na minha cabeça, nebuloso, uma dor imensa. Não tenho tratado bem o meu pai, e vê-lo assim fez-me perceber como sou burra e ingrata. Enquanto o via a arrastar-se no chão, revirando os olhos de dor, lembrava-me da sua imagem de há muitos anos, forte, com bigode negro, aquela voz forte ecoando na minha cabeça. E agora ali estava, o ex-combatente colonial, o meu pai, gemendo de dor no chão sem conseguir dizer uma palavra. Nada pode amenizar esta imagem de impotência e degradação física que está colada por dentro dos meus olhos. E eu, na minha juventude plena, chorando desesperada, desejando que nada de mal lhe acontecesse, pensando em tudo o que eu ainda não fiz e preciso que ele esteja lá para me ajudar. Egoísmo puro. A falta que o meu pai me faz sobrepôs-se a tudo, e eu só soube abraçar a minha mãe e pedir a Deus que nos ajude.
Não consigo explicar o que senti quando vi o meu pai, o MEU pai, caído no chão do quarto, em convulsões, depois de ter desmaiado as quatro da manhã. Nem recordo bem o que se passou, entre os gritos, o choro convulsivo e o gaguejar ao telefone para o 112. As luzes da ambulância, a maca, tudo confuso na minha cabeça, nebuloso, uma dor imensa. Não tenho tratado bem o meu pai, e vê-lo assim fez-me perceber como sou burra e ingrata. Enquanto o via a arrastar-se no chão, revirando os olhos de dor, lembrava-me da sua imagem de há muitos anos, forte, com bigode negro, aquela voz forte ecoando na minha cabeça. E agora ali estava, o ex-combatente colonial, o meu pai, gemendo de dor no chão sem conseguir dizer uma palavra. Nada pode amenizar esta imagem de impotência e degradação física que está colada por dentro dos meus olhos. E eu, na minha juventude plena, chorando desesperada, desejando que nada de mal lhe acontecesse, pensando em tudo o que eu ainda não fiz e preciso que ele esteja lá para me ajudar. Egoísmo puro. A falta que o meu pai me faz sobrepôs-se a tudo, e eu só soube abraçar a minha mãe e pedir a Deus que nos ajude.
9.21.2004
Princesa do Sol
É isto que sou hoje, enquanto este Sol doentio me aquece o corpo e a dúvida me arrepia o coração. Tenho que o dizer em voz baixa, a quem poderei contar o meu último pecado? As minhas pernas tremem outra vez e é um líquido tão transparente que me apetece passar-lhe os dedos, prová-lo com luxúria, não ter medo da insanidade. It's the beast within. Bate forte o músculo do peito enquanto sorrio perante as palavras que eu jurei não repetir. E disse-as, Deus me ajude! No íntimo da madrugada, senti-as... e isso é o mais insano que eu poderia admitir.
Made for each other
É o que significa Teriazoume. Cantado pela voz fenomenal da cipriota Evridiki, em 1992, esta música inspira e angustia ao mesmo tempo.
Bem-vindos.
Ao resto da minha vida.
Bem-vindos.
Ao resto da minha vida.
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