Entre a visão dilacerante da perda e recuperação de um sentimento muito intenso de amor, as minhas madrugadas não me deixam dormir.
Não consigo explicar o que senti quando vi o meu pai, o MEU pai, caído no chão do quarto, em convulsões, depois de ter desmaiado as quatro da manhã. Nem recordo bem o que se passou, entre os gritos, o choro convulsivo e o gaguejar ao telefone para o 112. As luzes da ambulância, a maca, tudo confuso na minha cabeça, nebuloso, uma dor imensa. Não tenho tratado bem o meu pai, e vê-lo assim fez-me perceber como sou burra e ingrata. Enquanto o via a arrastar-se no chão, revirando os olhos de dor, lembrava-me da sua imagem de há muitos anos, forte, com bigode negro, aquela voz forte ecoando na minha cabeça. E agora ali estava, o ex-combatente colonial, o meu pai, gemendo de dor no chão sem conseguir dizer uma palavra. Nada pode amenizar esta imagem de impotência e degradação física que está colada por dentro dos meus olhos. E eu, na minha juventude plena, chorando desesperada, desejando que nada de mal lhe acontecesse, pensando em tudo o que eu ainda não fiz e preciso que ele esteja lá para me ajudar. Egoísmo puro. A falta que o meu pai me faz sobrepôs-se a tudo, e eu só soube abraçar a minha mãe e pedir a Deus que nos ajude.
Sem comentários:
Enviar um comentário