2.19.2007

When it rains, it pours

Chove com a tristeza indolente de um Fevereiro inútil. Este frio que se apega a mim, quando saio já escuro para a calçada, diminui a minha vontade de existir para o mundo lá fora. Ao contrário do que sempre acreditei, noites de sofá e creme dourado na pele fresca podem ser mais atractivas que a exploração das vitrines na noite. A montra dos meus vícios existe só para ti, e se estás comigo não preciso de mais ninguém. Faço um esforço para me manter atraída, para que não morra em mim esse mundo exterior que sempre me seduziu. E no entanto, sinto-me a fugir para as quatro paredes em que só respiras tu. Sinto-me a preferir deitar a cabeça no teu ombro grande, enquanto me chamas "princesa" e "minha pequenita", e fazes carícias festivas nas minhas pernas. Ao invés de escolher a multidão e o que ela me pode dar.
Se me levanto cedo para ir ao ginásio; se bebo soja em vez de leite; se procuro aproximar o meu estilo ao que tu gostas; é só porque o teu amor me transformou irremediavelmente numa pessoa diferente.
Aprendi a lutar contra as minhas idiossincrasias, o meu orgulho, a minha mania de tudo saber e tudo fazer sozinha. Fizeste nascer o desejo de ser tua, e apenas tua, fiél até que o tempo se esgote, mãe dos teus filhos e mulher no teu nome. Ensinas-me continuamente que a tua inteligência emocional bate a minha irregularidade aos pontos, e que não é por eu ter visto meio mundo que sei lidar melhor com os sentimentos.

Finalmente. Fizeste-me aceitar que o Amor é uma coisa grande e bonita, que nos melhora ao invés de sufocar. Tudo o que tive antes foi uma amostra ridícula. Porque o amor, se não é igual em ambas as partes não é amor. É um engano.

2.17.2007

Era só um fantasma de passagem, e essa presença onírica com sons fugidios de Tori Amos perseguiu a minha consciência naquela tarde. Café e cigarros para aligeirar a minha solidão, papel e caneta para registar mais um entre tantos momentos de apenas eu. Antes de ser salva caí vezes sem conta. Posso desfilar na minha cabeça todos os deslizes, todas as palavras que nunca me disseram, todo o desamor que caiu sobre as minhas mãos. Também toda a crueldade que eu soube exercer sobre aqueles que me deram o que eu não queria ter. Há uma massa comum de sentimento indexada a todos esses nomes. Y si fuera ella? Ensinaste-me, com essa voz rouca e em castellano, como é possível fazer a transferência. O T torna-se o F que se torna o J que se torna o G que se torna o D, e a partir do D, tudo o resto foi menor. Era para o D que eu tantas vezes escrevia, ass hole, mas creio que ninguém entenderá a importância de um nunca-foi que mudou a minha vida. Não seria assim, como sou hoje, se o D não tivesse chegado e mentido e tornado os meus dias num coração a sair pela boca por constância e numa tentação que, apesar de errada, era demasiado dura de resistir.
D será, talvez, a única pessoa do meu passado que se mantém nesse limbo de estou-aqui-se-precisares. Não preciso, é claro. Mas devo reconhecer que assim é porque D se revelou na única pessoa que esteve ao meu nível, e soube olhar além do previsível. De certa forma, tornou-me na pessoa que iria alcançar o Paraíso, a que tremeu durante meses à espera de uma mensagem, a que corou vezes sem conta perante um elogio, a que descobriu que - afinal - era possível fazer tábua rasa das vergonhas do passado.
E tenho várias. Vejo que não poderia ter sido de outra forma, mas quase fico histérica de riso quando relembro as estirpes que me ocuparam o pensamento. Badamecos, beb'águas, burros, totós de direita, totós apolíticos, totós com dicção quase incompreensível, meninos da mamã, enfim. Um festival de asneiras.
Só por tê-las cometido consigo reconhecer a sorte que hoje me bafeja. E ela é privada, intransmissível e inatingível. Unbreakable. É preciso um bocadinho mais que a simples trapalhada de uma voz gaguejante, de quem se acha assente no altar do poder mas não passa de uma amiba. É tão ridículo que apetece sorrir. :)

Até onde vai o firmamento

E desde que o rosa se estenda como uma bruma sagrada sobre todas as minhas ansiedades. Há erros de casting que não se podem corrigir, porque fazê-lo seria por em causa o que deles decorreu. Há também lições que chegam dos cheiros mais inusitados, quase desconhecidos, esses cheiros que estão tão longe e despertam o nojo. Cheira-me a podre, e já se sabe que tenho estômago fraco como a minha mãe. Eu e o meu irmão tínhamos por costume provocá-la, trazendo em palavras cenários de horror que a faziam de imediato correr para a casa de banho.
Não sou assim tão sensível, mas que diabos! A putrefacção só não impressiona os gajos do CSI. E este cheiro a podre é tão intenso. Em breve chegarão as moscas (só espero que encham essas bocas).