2.17.2007

Era só um fantasma de passagem, e essa presença onírica com sons fugidios de Tori Amos perseguiu a minha consciência naquela tarde. Café e cigarros para aligeirar a minha solidão, papel e caneta para registar mais um entre tantos momentos de apenas eu. Antes de ser salva caí vezes sem conta. Posso desfilar na minha cabeça todos os deslizes, todas as palavras que nunca me disseram, todo o desamor que caiu sobre as minhas mãos. Também toda a crueldade que eu soube exercer sobre aqueles que me deram o que eu não queria ter. Há uma massa comum de sentimento indexada a todos esses nomes. Y si fuera ella? Ensinaste-me, com essa voz rouca e em castellano, como é possível fazer a transferência. O T torna-se o F que se torna o J que se torna o G que se torna o D, e a partir do D, tudo o resto foi menor. Era para o D que eu tantas vezes escrevia, ass hole, mas creio que ninguém entenderá a importância de um nunca-foi que mudou a minha vida. Não seria assim, como sou hoje, se o D não tivesse chegado e mentido e tornado os meus dias num coração a sair pela boca por constância e numa tentação que, apesar de errada, era demasiado dura de resistir.
D será, talvez, a única pessoa do meu passado que se mantém nesse limbo de estou-aqui-se-precisares. Não preciso, é claro. Mas devo reconhecer que assim é porque D se revelou na única pessoa que esteve ao meu nível, e soube olhar além do previsível. De certa forma, tornou-me na pessoa que iria alcançar o Paraíso, a que tremeu durante meses à espera de uma mensagem, a que corou vezes sem conta perante um elogio, a que descobriu que - afinal - era possível fazer tábua rasa das vergonhas do passado.
E tenho várias. Vejo que não poderia ter sido de outra forma, mas quase fico histérica de riso quando relembro as estirpes que me ocuparam o pensamento. Badamecos, beb'águas, burros, totós de direita, totós apolíticos, totós com dicção quase incompreensível, meninos da mamã, enfim. Um festival de asneiras.
Só por tê-las cometido consigo reconhecer a sorte que hoje me bafeja. E ela é privada, intransmissível e inatingível. Unbreakable. É preciso um bocadinho mais que a simples trapalhada de uma voz gaguejante, de quem se acha assente no altar do poder mas não passa de uma amiba. É tão ridículo que apetece sorrir. :)

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