3.19.2009

Pai

A tua figura em sofrimento constante pesa-me na alma como um machado de chumbo que não me deixa voar. Saber que te dói é a maior mágoa da minha vida. Falhou-te a carne, e o teu espírito arrasta-se com ela. Quase não consigo pensar em ti sem me subir de imediato um nó à garganta e as lágrimas aos olhos. Queria poder ver-te na minha cabeça como eras há quinze, vinte anos. Forte, vivo, capaz. Um touro. O melhor pai do mundo, mesmo quando te gritava e fechava a porta na cara. Queria poder agarrar nessas fissuras que tens dentro de ti e curá-las a todas. Imagino como te dói e parte-se-me o coração. O teu sofrimento obrigou-me a mudar a vida. A beber só quando alguém faz anos, a fumar só quando a Madonna vem a Portugal, a rejeitar qualquer carne proveniente de animais com quatro patas, a desintegrar o saleiro lá da cozinha, a cozinhar os vegetais todos a vapor. A ir ao ginásio todos os dias da semana. A dormir oito horas em vez de quatro, a levantar às oito e não às onze. Disciplinei-me. O teu exemplo faz-me querer estrangular alguém se ouço dizer "quando morrer vou deitado" e "isto é para os bichos".

Tu também dizias isso, pai.
Deste cabo de ti. E hoje, o teu sofrimento dá cabo de mim. O amor que te tenho é infinito, e tudo o que sou devo ao amor inimaginável que depositaste sobre mim. A infância imaculada. O apoio eterno e incondicional. Sou feliz para que o sejas, através de mim.

Vou almoçar contigo... só nós os dois, no Dia do Pai.

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