10.29.2004

Nudez

O exílio a que fui obrigada neste mês de Outubro deu cabo de mim. Bem sei que a culpa foi minha; eu é que paguei 6.200 euros para que um médico trocista me esculpisse. Mas a consequente tortura da dor, o isolamento do mundo exterior, a interrupção abrupta de tudo o que eu mais gostava de fazer, a impossibilidade de dançar, tornaram-me pequenina. Apercebo-me que sou o que faço e não aquilo que idealizo.

Ainda e sempre este amor que me sufoca: a ausência deixou-me desvairada. Nas longas horas que passei imobilizada na cama, meia inconsciente pela quantidade de drogas que a dor me fez tomar, delirei várias vezes... Não vivi para mais nada, nesses dias longos e tormentosos: queria ultrapassá-los apenas para poder estar ali outra vez, sentir o peso do seu corpo, deixar os cabelos cair-lhe sobre o peito a cada beijo de sofreguidão.
Mas passei a última semana a lutar contra ele, a tentar libertar-me desse jugo. E hoje aceito finalmente que não consigo, e então estou-lhe entregue. Esta é uma certeza que só se tem uma vez na vida: vou acreditar até ao fim.

E o que mais desejo é despir-me, a nudez exalta o amor que sinto.

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