10.21.2004

E ainda em silêncio

Este vento indomável que me arrepia os cabelos e me obriga a saber que é fim de tarde reflecte a minha própria impaciência. Voltar a viver, ser Eu outra vez aos olhos do mundo. Duas semanas de ausência e parece que estive sempre longe. Nada muda e só eu insisto em aparecer diferente. Estarei mesmo mais forte? Terá a dor conseguido transformar-me numa mulher? Sei que às vezes esqueço como sou abençoada, e esta é uma dessas alturas. Sinto-me pequena, invisível, retrocendendo, rastejante, mal-amada. (E sou cruél comigo mesma).
Sempre amada pela metade, e quase sempre pelas razões erradas. Estou a sentir-me como um imenso poço de lava efervescente e revoltado, contorcido na escuridão de um vulcão inactivo. I'm an angry white woman.
Sou dura, possessiva, autoritária, orgulhosa, altiva. Sou um lobo disfarçado de cordeiro, e, ironicamente, é essa vassalagem aos entes de quem preciso que me torna vulgar aos seus olhos. Estou à espera do meu momento. Não posso admitir a verdade antes de estar forte o suficiente para aguentar de pé as consequências. Tenho de continuar a fingir que perdooei o passado, quando na verdade ele me consome de raiva e de ressentimento.
Quando chegar o momento, vai tudo ao ar. Ainda que me torne um calhau por dentro, um inútil pedaço de frio, quero despedir-me dessa fragilidade que é a dependência emocional. Porque não sou amada de volta, porque não recebo nada daquilo que quero. Porque não passa um segundo nos meus dias dolorosos em que não me atormentem essas palavras que eu tive de ouvir, essa visão do que aconteceu, a consciência de que me arrasto por alguém que não me ama. Não passa um segundo sem que a verdade escondida me mortifique, sem que eu me sinta mutilada, desesperada por me ter deixado humilhar.
Sou uma vergonha para mim própria.

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