1.12.2005

Reveillon Parte II

De modos que eram onze e meia e lá estávamos as duas metidas no barracão verde, a vestirmos o short e o soutien que compunha a roupa da primeira parte do show num canto. Maquilha para aqui, calça meia para ali, e menos nada os gritos, fogo-de-artifício, champanhe a rebentar, entrámos em 2005. «Feliz ano novo para ti amiga» «Para você também» «Achas que é melhor dobrar a fita ou atá-la?» Demos um abraço e continuámos. Daí a 15 minutos entraríamos em palco.
Nem por isso estavámos nervosas, mas quando finalmente soaram os acordes da 'Brincadeira da Tomada' e nós fizemos a nossa entrada triunfal, a Angel errou toda a coreografia. Eu não sabia se ria ou se chorava, mas era uma para o lado, outra para o outro, um desastre. As músicas a seguir já correram bem, até ao primeiro intervalo: a Angel foi a correr vomitar no barracão (segunda sessão nojo), não entrou a tempo na segunda parte, menos nada os adolescentes primatas que estavam a hurrar lá em baixo começaram a trepar o palco e um deles agarrou-me na perna. Mantive o sorriso e dei um ligeiro pontapé, dancei para trás, fiz algumas macacadas com o gajo do cavaquinho e deu o segundo intervalo.
Aí que o bicho pegou. Hordes de adolescentes em brasa descobriram o camarim e começaram a abalroar a lona, eu e a Angel estupefactas lá dentro, já a pensar que íamos ter de fugir palco adentro. Entretanto, um pequenote deprimente que fazia parte da organização do espectáculo, já em fase de paixão crónica pela Angel, colocou-se à entrada do camarim a dizer em açoriano «Aqui ninguém mexe!» Os adolescentes ululavam ainda, e ele entrou para pegar uma garrafa vazia de whiskey (sim, os membros da banda bebiam que nem gente grande). Eu e a Angel olhámos uma para a outra e pensámos Nossa agora vai sair pau ele vai acabar com a raça deles!
Não dá dois minutos, e o pequenote volta a entrar camarim a dentro, mas desta feita de costas e a 120 km por hora, depois de ter sido escolachado pelos imberbes nativos de Povoação. Eu corri para cima do palco e de lá não saí mais, numa histeria entre a incredulidade e a adrenalina. Berros lá em baixo, telemóveis e máquinas a clicar o tempo todo, uma loucura. Quando o show finalmente acabou, descemos todos para o barracão e eis que vem a reedição da histeria. Um dos jovens maluquetes viu-me tirar o short por baixo da saia comprida e não mais se calou a noite inteira: «Dá-me as túes cuecas, per favooor». Foi depois um regabofe de autógrafos, fotos, beijinhos para aqui e para ali, e o pequenote a aperceber-se que estava perto a hora da despedida, que não mais ia ver a Angel, os olhos embaciados comoveram-me e deprimiram-me imensamente. Putos a bater nas janelas da carrinha, e vimos Povoação afastar-se na estrada com um alívio continental. Que terra perdida no mundo, que gente esquecida por Deus e pelo Diabo!
Hora e meia depois, de volta ao hotel. Tivemos permissão de dormir duas horas, porque íamos apanhar o avião das oito e quarenta e cinco. As coisas que o corpo aguenta. Assaltámos que nem indigentes a sala de pequeno-almoço, a qual rondávamos desde as 7 e 20, e lá voltámos para Lisboa, meio atordoados com a experiência acabada de vivenciar.
Antes de aterrar na Portela ainda houve tempo para mais um disparate: um viajante que ia sentado na nossa fila meteu conversa, disse que também era músico, perguntou se éramos bailarinas. Que sim, que somos. E ele comentou então, que no Casino Estoril estavam a precisar de bailarinas, que era tudo super profissional, bem pago, que volta e meia só era preciso «mostrar as maminhas». Foi a machadada final. Corri para a recolha de bagagem como se fugisse de um pit bull e enquanto não coloquei os pés no chão lisboeta não descansei. Deixei de ouvir o que me diziam, estava morta de cansaço. Então foi giro? E eu nem soube o que responder.
Foi surreal.
Mas o meu bolso voltou com 250 euros a mais.

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