É como se houvesse um fosso invisível para onde foi sugada a minha capacidade de deslumbramento. Sinto-me noutro planeta. A minha memória raramente escorrega para o passado, para esses dias em que eu amava tão violentamente que parecia viver em permanentes convulsões. Um dia, o dia depois de perceber que não voltarias, foi-se. Não consigo amar. Não consigo achar a perfeição – suspendendo a experiência e caindo nesse erro infantil de acreditar que alguma pessoa pode ser perfeita. Eu queria voltar a acreditar nesse erro. Eu queria voltar a sentir o estômago às voltas, o coração a sair pelos olhos, as noites a cair-me nas mãos como sons inquietantes que me impedem de dormir, mas me obrigam a sonhar. Tornei-me límpida aos meus olhos; já não me consigo enganar. Já não consigo forçar. Não sei amar, é tão simples e tão trágico quanto isto.
Deixei de exigir, deixei de querer tudo ou nada, deixei de pensar nisso. Perdi o decoro e chutei as convenções sociais para longe. Sou uma cougar; ou sou uma cabra; ou sou uma princesa; ou sou tudo ao mesmo tempo e nada, na verdade, não sou nada para ninguém.
Tenho de ter cuidado com o amor que as pessoas me têm.
Porque eu, na verdade, não consigo amar de volta.
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